A seca histórica do Rio Negro em 2023 e 2024 deixou marcas na paisagem e na memória dos manauaras.
Em outubro de 2023, o Rio Negro atingiu o nível mais baixo já registrado desde o início das medições sistemáticas, em 1902. O porto de Manaus, que normalmente opera com folga, viu seus flutuantes encalharem. Comunidades ribeirinhas ficaram isoladas. Peixes mortos boiavam em lagos que haviam secado. A imagem que ficou na memória de quem viveu aqueles dias foi a do chão rachado onde deveria haver água.
Eu estava em Manaus naquele outubro. Fui ao encontro do rio todos os dias, como se precisasse testemunhar pessoalmente o que os dados já confirmavam. Havia algo de perturbador na visão daquele leito exposto — não apenas pela magnitude do fenômeno, mas pela sensação de que algo fundamental havia mudado.
O que a seca revelou
A seca extrema do Rio Negro não foi apenas um evento climático. Foi uma radiografia das vulnerabilidades de uma cidade e de uma região que dependem do rio para quase tudo — transporte, abastecimento de água, pesca, comércio, identidade cultural.
Comunidades do interior que dependem de barcos para receber alimentos e medicamentos ficaram semanas sem abastecimento. Pescadores que sustentam suas famílias com o que tiram do rio viram sua renda desaparecer. Crianças que aprenderam a nadar no rio antes de aprender a andar viram o rio sumir.
Entre a memória e o futuro
Os mais velhos de Manaus lembram de secas anteriores — 1963, 1997, 2010. Mas nenhuma como essa. "Meu pai me contou da seca de 63", me disse Seu Francisco, 71 anos, pescador aposentado que mora às margens do rio há toda a vida. "Mas ele nunca viu o rio assim. Ninguém viu."
A ciência climática projeta que eventos como esse se tornarão mais frequentes e mais intensos nas próximas décadas. Para Manaus e para toda a Amazônia, isso não é uma abstração estatística — é uma ameaça concreta ao modo de vida de milhões de pessoas. Aprender a conviver com essa realidade, sem resignação e sem negação, é o desafio que a cidade começa a enfrentar.
Editora
Jornalista manauara de terceira geração. Cobre a Amazônia com a perspectiva de quem cresceu entre o rio e a floresta, e com a responsabilidade de quem sabe o que está em jogo.