A demarcação de terras indígenas no Amazonas avança em ritmo irregular, enquanto pressões externas sobre os territórios se intensificam.

O Amazonas abriga a maior concentração de povos indígenas do Brasil — mais de 60 etnias, com populações que variam de algumas centenas a dezenas de milhares de pessoas, distribuídas por um território que corresponde a mais de 18% do país. A proteção desses povos e de seus territórios é uma questão constitucional, mas também uma questão de sobrevivência — tanto das comunidades quanto da floresta que habitam.

A relação entre demarcação territorial e conservação ambiental é bem documentada: terras indígenas demarcadas apresentam taxas de desmatamento sistematicamente menores do que áreas vizinhas sem proteção legal. Os povos indígenas são, nesse sentido, os guardiões mais eficazes da Amazônia — não por romantismo, mas por interesse direto na preservação do ambiente que sustenta sua vida.

O avanço irregular das demarcações

O processo de demarcação de terras indígenas no Brasil é lento, burocrático e politicamente disputado. No Amazonas, dezenas de processos aguardam conclusão há anos ou décadas, enquanto as pressões sobre os territórios — garimpo ilegal, grilagem, pesca predatória — se intensificam.

Visitei a comunidade Mura do Lago Ayapuá, no município de Beruri, onde uma disputa territorial se arrasta há mais de quinze anos. O cacique Davi Mura, 52 anos, me recebeu com a paciência de quem aprendeu que a luta é longa. "A terra não é nossa propriedade", ele me explicou. "Nós somos da terra. Quando a terra acaba, nós acabamos também."

A frase não é metáfora. É uma descrição precisa de uma relação que o direito brasileiro reconhece formalmente, mas que a prática institucional ainda não aprendeu a proteger de forma consistente.


Renato Paiva
Renato Paiva
Repórter

Formado pela Universidade Federal do Amazonas. Especializado em cobertura ambiental e povos indígenas. Percorreu mais de 30 municípios amazonenses nos últimos cinco anos.

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