Criada há mais de cinquenta anos, a Zona Franca de Manaus enfrenta o desafio de se reinventar em um contexto de desindustrialização global e transição tecnológica.
A Zona Franca de Manaus completou 58 anos em 2025. Criada em 1967 como instrumento de integração da Amazônia à economia nacional, o modelo acumulou ao longo de décadas uma série de conquistas concretas: industrialização de uma região que de outra forma seria ainda mais marginalizada, geração de empregos formais em uma cidade que cresceu a taxas vertiginosas, e uma base tributária que sustenta serviços públicos em todo o estado do Amazonas.
Mas o modelo enfrenta hoje pressões que suas décadas de existência não conheceram. A desindustrialização global, a automação de processos produtivos, a transição para economias de serviços e a crescente competição de outros polos industriais no Brasil e no exterior colocam em questão a sustentabilidade de longo prazo de um arranjo que depende de incentivos fiscais para manter sua atratividade.
O que a ZFM produz — e o que não produz
A Zona Franca é frequentemente apresentada como um polo industrial, mas sua estrutura produtiva é mais complexa do que essa descrição sugere. A maior parte do valor adicionado concentra-se em atividades de montagem — de motocicletas, eletroeletrônicos e produtos de informática — que dependem de componentes importados e são vulneráveis a variações cambiais e a mudanças nas cadeias globais de suprimento.
O desenvolvimento de capacidades produtivas locais — fornecedores regionais, centros de pesquisa e desenvolvimento, formação de mão de obra especializada — avançou menos do que o esperado. O resultado é uma industrialização que gera emprego e renda, mas que não criou ainda o ecossistema de inovação que poderia torná-la mais resiliente.
Caminhos para a reinvenção
Há caminhos possíveis. A bioeconomia — aproveitamento sustentável da biodiversidade amazônica para produção de cosméticos, fitoterápicos, alimentos funcionais e outros produtos de alto valor agregado — representa uma oportunidade que combina as vantagens comparativas únicas da região com tendências globais de mercado.
Mas aproveitar essa oportunidade exige investimentos em pesquisa, infraestrutura logística e formação de capital humano que não acontecem espontaneamente. A Zona Franca do futuro, se quiser continuar sendo relevante, precisará ser muito diferente da Zona Franca do passado.
Editora
Jornalista manauara de terceira geração. Cobre a Amazônia com a perspectiva de quem cresceu entre o rio e a floresta, e com a responsabilidade de quem sabe o que está em jogo.